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Tributos ao Grão Mestre Brendan Lai


Instrutor Chefe Samuel Mendonça - Sede Oficial Campinas-SP

Origem e evolução do Louva-a-Deus do Norte Sete Estrelas
Sabe-se que o fundador do Sistema Louva-a-Deus foi Wong Long, da província de Shantung, China, há cerca de 360 anos. De uma forma sucinta, tal sistema foi originado da observação de uma luta entre um Louva-a-Deus e uma cigarra. Impressionado com a ferocidade do inseto, ele o recolheu para estudar seus movimentos e posterior experimentação em luta.

Evolução do Sistema
Após Wong Long, o sistema continuou com o taoísta Sin Siu, de origem desconhecida, que ensinou para Lei San Tin de Hai Yang, que posteriormente ensinou para Wong Wei San, de Fu Shan, que ensinou para Fan Yo Tong, de Chi Moh, que transmitiu os seus conhecimentos para Lo Kuo Yo, de Fung Lo, o qual teve muitos alunos, inclusive Wong Hon Fan, de Soen Duk, Cantão, conhecido em Hong Kong como: "O Rei do Louva-a-Deus" que deixou o seu legado para 25 discípulos em mais de 40 anos de ensino e dedicação ao sistema, embora tivera mais de quatro mil alunos. Grão Mestre Brendan Lai foi um dos discípulos do Wong Hon Fan em Hong Kong, recebendo o Certificado e a Caligrafia, critério de reconhecimento dos DISCÍPULOS GRADUADOS.
Grão Mestre Lai emigrou para os EUA na década de 60 e com a permissão do seu Sifu (Instrutor/Pai), começou a expandir o estilo no ocidente, tendo sido um dos primeiros professores a ensinar um estilo do norte da China nos Estados Unidos da América. Certa vez, quando somente estilos do sul da China eram populares nos EUA, Lai Si-Gung apresentou a forma avançada Muy Fa Kuen no 1º Festival de Artes Marciais dos EUA e quando terminou o silêncio tomou conta do Ginásio por alguns segundos. As pessoas ficaram impressionadas com a velocidade e leveza dos movimentos e aplaudiram sem interrupção.
Lai Si-Gung descrevia que havia muita resistência por parte dos mestres chineses nos EUA, em se tratando do ensino da Arte Marcial para ocidentais. Ele abriu uma escola fora de Chinatown em São Francisco em 1967 e muitos mestres quiseram impedi-lo de ensinar o Gong Fu, mas levou o seu projeto à frente e hoje o Louva-a-Deus Sete Estrelas é um dos sistemas de Wu Shu mais conhecidos no ocidente.

Evolução no Brasil
Há diferentes linhagens do estilo Louva-a-Deus no Brasil. Mas, foi no ano de 1999, que através de contatos com o Si-Fu Fernando Blanco da Argentina, Si-Fu Steve Cottrell do Texas, Si-Hing Eric Ishii de São Francisco, que iniciamos o contato com o Grão Mestre Brendan Lai. Ele colocou um critério para saber se estávamos de fato interessados em trazer sua linhagem para o Brasil. Deveríamos ir até os EUA para que ele pudesse nos avaliar. Em nome de um grande grupo de professores fui para os EUA no mês de outubro do mesmo ano, com a tarefa de convidar ao Grão Mestre Lai a vir para o Brasil para ensinar o Tradicional Louva-a-Deus do Norte. Fui recebido por ele no Aeroporto Internacional de São Francisco na Califórnia com uma placa intitulada: "Welcome Samuel". Senti-me à vontade, por perceber desde o início que o Grão Mestre Lai é realmente uma pessoa humilde e bem humorada. Foi uma experiência fantástica, pois também tive a oportunidade de treinar com alguns de seus alunos mais antigos.
Grão Mestre Lai desembarcara no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, menos de um mês depois da minha visita. Pela primeira vez na história do Gong Fu nacional, um discípulo graduado por Wong Hon Fan visitava o nosso país. Realizamos então o I Seminário Internacional Louva-a-Deus do Norte Sete Estrelas, em que dezenas de alunos e professores convidados participaram, apoiando a nossa iniciativa. Recebemos na ocasião, a visita de diversos professores/mestres de Wu Shu do Brasil como: Léo Imamura (Ving Tsun) Li Wing Kay (Garra de Águia), Adriano Barros (Louva-a-Deus Sete Estrelas), além de termos visitado o Grão Mestre Chen Guo Suo (Zhouyiquan e Qi Gong) em São Paulo.
Grão Mestre Brendan Lai, Ph. D. em Artes Marciais pela Eurotechnical Research University, Havai, proferiu uma Conferência no Depto. de Línguas Orientais da USP, sobre o Gong Fu e a Cultura Chinesa, onde o então Presidente da Federação Paulista de Gong Fu, Léo Imamura, juntamente com Paulo José da Silva (Pai Ho), além dos professores do departamento, como o Dr. Mário Bruno Sproviero, prestigiaram o evento. Ensinou a forma intermediária Ba Yuen Tao Tou (Macaco Branco Rouba Pêssego) na Faculdade de Educação Física da Unicamp. No jantar de Confraternização contamos com a presença do Presidente da Confederação Brasileira de Kuo Shu Chinês, Li Wing Kay e do Presidente da United States Kuo Shu Federation, Chien Liang Huang.
Um ano depois, em dezembro de 2000, graças ao trabalho conjunto do meu Si-Hing (irmão de Gong Fu) Paulo Junqueira, responsável pelo Núcleo São Paulo, trouxemos novamente o Grão Mestre Brendan Lai, visando consolidar o nosso trabalho. Naquela oportunidade, Grão Mestre Lai ficou por um período de um mês, muito pouco, é claro, porém suficiente para que ficássemos deslumbrados com a riqueza do sistema. Então, foi possível uma maior fundamentação do estilo, pois, "formas" já havíamos aprendido muitas, mas aplicá-las foi algo inédito. Realizamos então o II Seminário Internacional Louva-a-Deus do Norte Sete Estrelas em Campinas e São Paulo, em que participaram instrutores/professores de diversos estados, tais como: Davi Brandão (RO), Wilker Rodrigo (MG), Breno Cardoso (PB), Luciano Firmino (RJ), Agnaldo Santana e Estevam Michael (SP). Recebemos desta vez a visita de Nereu Grabalhos, Marcus Vinicius (Shaolin Norte), Francisco D'Urbano (Wing Chun), além de termos visitado o Grão Mestre Chan Khok Wai (Shaolin Norte) em São Paulo.
Contudo, podemos assegurar que a consolidação do trabalho se deu em definitivo em 2001, quando o Grão Mestre Lai ficou hospedado em minha casa, Campinas, por quatro meses, de junho a outubro, graças novamente ao apoio do meu Si-Hing Paulo Junqueira, e dos meus alunos mais experientes: Marcos Lisboa, Odair Argeu, Vitor Machado, Alex Victor, Edson Delaseri, Heiko Roschke, dentre outros, que aproveitaram muito esta visita de Lai Si-Fu, pois, treinaram com ele todos os dias. Recebemos a visita de Tat Ma Wong, Serra, De Paula, Ortega e Armando (Choy Lay Fut) no nosso Mo Kwoon.
Grão Mestre Lai supervisionou as aulas dos iniciantes até os avançados, ensinando: técnicas, fundamentos, disciplina, cultura, filosofia, humildade, enfim, Gong Fu.
Realizamos o III Seminário Internacional Louva-a-Deus do Norte Sete Estrelas em Campinas. Desta vez, o evento foi fechado para os alunos do Instituto. Lai Si-Fu supervisionou dois Exames de Graduação em Campinas, fato inédito no Brasil, além de ter ensinado Chin-Na, Lo Han Gong (Chi Gong) e compartilhado muitas histórias da cultura chinesa com todos os alunos. O Sistema de Graduação foi revisto e ampliado.
Em julho de 2002 voltei para os EUA para aprimoramento técnico na Praying Mantis Martial Arts Institute com o meu Si-Hing, Mestre Tony Chuy, discípulo de Lai Si-Fu e de Chiu Chuk Kai (Tai Chi Ton Long) em Nova Iorque. Pude perceber o significado de uma escola tradicional, com 20 anos de existência e trabalho contínuo, Tony Chuy é hoje uma das maiores referências do Louva-a-Deus do Norte nos EUA, pois treinou com autorização de Lai Si-Fu com outros discípulos graduados de Wong Hong Fan nas décadas de 70 e 80 em Hong Kong e EUA. Em seguida, fui até São Francisco visitar Lai Si-Fu que estava hospitalizado em virtude do agravamento de diabetes que ocasionou a perda de um dos rins. Foi muito emocionante esta visita e fiquei horas conversando com ele e outros alunos mais antigos. Ele estava muito sereno e fizemos planos para seu retorno ao Brasil.
No dia 23 de setembro de 2002 Lai Si-Fu faleceu por complicações do seu quadro de saúde. Seu filho Alvin me avisou e imediatamente fui prestar as últimas homenagens a ele no funeral. Reuniram-se familiares e alunos de diversas partes dos EUA, das décadas de 60, 70, 80, 90 e do novo milênio e lamentavelmente perdemos uma lenda viva e autêntica do Louva-a-Deus Sete Estrelas. Felizmente Lai Si-Fu plantou a semente do sistema e seu legado continua com a Si-Mo (esposa do Si-Fu), seus filhos e os seus alunos dos EUA e no Brasil com o nosso Instituto de Gong Fu Brendan Lai.
Obrigado, Si-Fu, pelo exemplo de vida! Reafirmo o compromisso de desenvolvimento da Arte Marcial Chinesa Tradicional no Brasil.

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Vitor Barletta Machado - Campinas, SP, Brasil

Quando grandes homens deixam a existência terrena somos tomados pelo sentimento da perda. Não é por menos. Tudo nos fará falta. A companhia física da pessoa. Sua voz. Seus gestos. Seu temperamento. Seu conhecimento. Tudo desaparece repentinamente, nos lembrando da fragilidade da existência humana. Realmente somos nada na infinidade do tempo, ou para utilizar uma metáfora religiosa comum para nós ocidentais: “do pó viemos ao pó retornaremos”. Tal frase apenas nos relembra de como nossa vida é frágil, de quão pouco controle temos sobre ela.


No momento em que recebi a notícia do falecimento do Si Gung fiquei sem palavras e sem gestos. Não sabia o que me afligia mais: não poder conviver com a sua figura humana, extremamente agradável, ou não ter conseguido aprender nem mesmo um centésimo do que ele tinha para ensinar. Com ele desapareceu mais um dos representantes de um modo de ser praticante de gong fu que já não existe nos fúteis tempos que vivemos. Grão Mestre Brendan Lai era um exemplo, muito além disto, um modelo do que é ser um praticante de artes marciais. Minha vida foi enriquecida pela oportunidade de conviver de perto com o nosso agora saudoso Si Gung.


Gostaria de partilhar com todos que agora lêem este texto um destes momentos de enriquecimento que falei anteriormente, para dar uma pequena dimensão de quem era o nosso Si Gung. Tive o privilégio de sair para jantar com o Si Fu e o Si Gung por algumas vezes, em uma delas fomos até uma pizzaria de que eu gostava muito, um lugar calmo, sem muito barulho, onde sabia que poderíamos nos sentar e conversar calmamente. Na ocasião éramos sete pessoas: o Si Gung, o Si Fu e a Si Mo, o Tai Si Hing Marcos e sua esposa, minha esposa e eu. O jantar foi bastante animado e descontraído e então começamos a fazer diversas perguntas ao Si Gung, que respondeu todas com grande prontidão. Em certo momento dirigi-lhe a seguinte questão: como havia sido a vida dele de praticante de gong fu durante o regime comunista na China? Observamos o Si Gung adquirir uma feição séria, tão ou mais do que a que possuía ao ensinar alguma técnica, começando a nos contar a história da sua vida, que pretendo aqui reproduzir.


Primeiramente ele nos disse que sua família tinha sido muito rica, eram comerciantes de produtos agrícolas, contando inclusive com vendas ao exterior. Afirmou que a riqueza era tanta que, se ainda tivesse aquele dinheiro todo, ele certamente não estaria ali conversando conosco. Disse-nos isto para mostrar o quão diferente teria sido a vida dele. Então veio a revolução comunista na China. As famílias ricas como a do Si Gung começaram a se apavorar. Tinham razão para isto. Durante a revolução chinesa muitos burgueses e grandes proprietários de terras foram sumariamente fuzilados e seus bens confiscados. Os pais do Si Gung começaram a perceber que seus ricos vizinhos estavam sumindo, ou pegos pela revolução ou por fugirem com suas famílias. Foi este último o caminho que decidiram adotar. Reuniram os bens que podiam carregar em grandes baús, que ficaram então cheios de peças de ouro e dinheiro, fecharam a casa dizendo aos vizinhos que estavam indo viajar. Rumaram para a estação de trem onde encontraram o pânico. Os vagões estavam lotados de pessoas fugindo dos eventos! Não havia mais espaço! De nada adiantava oferecer dinheiro por um lugar no trem, ninguém desejava ficar para trás. Naquele momento toda a riqueza da família não valia nada.


Contaram então com um golpe do destino. Um dos funcionários que organizava a partida dos trens era conhecido da família Lai. Tal homem havia sido financeiramente auxiliado pelo pai do Si Gung em um momento de grande dificuldade, sem que nada lhe houvesse sido cobrado. Vendo o desespero em que se encontravam, ele conseguiu colocá-los dentro de um dos vagões. Mas as malas teriam que ser despachadas em outro trem. Não sabiam que seria a última vez que as veriam, junto com todo a riqueza que haviam possuído. Elas se perderam pela estação, ou nas mãos de algum aproveitador, ou confiscada pelos fiscais do governo que estava se instalando . Entretanto estavam salvos. O trem partiu em direção de Hong Kong, que ainda estava sob domínio da Inglaterra , sendo portanto, um porto seguro para os refugiados da revolução.


Neste ponto da narrativa, Si Gung enfatizou a pobreza em que se encontraram repentinamente. Não tinham nada, nem mesmo para comer. Passaram muito tempo dividindo apenas uma cumbuca de arroz. Para quem estava acostumado com a fartura e ainda era muito criança para compreender os eventos que aconteciam, o impacto foi grande. Como era do seu caráter ele não escondeu a tristeza no seu olhar ao rememorar tais fatos.


Mas o tempo passou. A família continuava pobre, mas os pais começavam a se virar com o trabalho que eram capazes de arranjar. A casa de vários quartos substituída por uma infinitamente mais modesta, na qual todos os irmãos precisavam dividir um quarto. Foi neste contexto que o Si Gung conheceu a academia do nosso Tai Si Gung (Wong Hon Fan). Entrou para assistir uma aula e passou a ir lá todos os dias. Até que foi interrogado sobre o seu interesse em começar a treinar. Precisou responder que não tinha dinheiro suficiente para pagar as mensalidades. Tai Si Gung lhe disse então que poderia treinar por uma mensalidade de oito dólares. O pequeno Lai Da Chung correu para casa. Queria saber se a mãe seria capaz de dispor de tal soma. Ficou radiante quando ela lhe disse que sim. Não posso descrever em palavras a sensação de ver e ouvir o Si Gung contar estes fatos. Seus olhos ficavam cheios de emoção, ele revivia cada sentimento, a tristeza de não ter dinheiro, a ansiedade da conversa com a mãe, a felicidade de poder começar a treinar.
A dedicação ao treinamento foi intensa. Certamente aliando a vontade de aprender com a de honrar o sacrifício da sua mãe e a oferta do Si Dai Gung. Treinava duro, “hard” como ele gostava de nos dizer. Todos os dias. Estudava e trabalhava durante o dia. No período da tarde freqüentava a academia. Chegava em casa e continuava treinando das vinte horas até a meia-noite. O pequeno Brendan Lai começava a traçar seu destino. Seu corpo se fortalecia a cada dia. Neste ponto reapareceu o humor característico do nosso Si Gung, que afirmou que agora estava gordo, mas que naqueles tempos era muito forte. Uma tia veio visitá-los certo dia e quase não reconheceu o sobrinho. Perguntou-lhe o que havia feito para crescer tanto. Ao responder que era o gong fu precisou demonstrá-lo para ela que ficou, logicamente, impressionada com a sua perícia, dizendo-lho que seria o “Lai do gong fu”. Ela não poderia estar mais correta.

Quero neste momento terminar. Deixo para todos a mensagem do nosso Si Gung: “treinem duro!”. Aprendendo o que é o verdadeiro gong fu todos os obstáculos podem ser superados. Os resultados virão.

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Marcos J. Alves Lisboa - Campinas - SP

Acredito que, depois de tudo o que meus irmãos de Gong Fu e o Sifu disseram, qualquer expressão da importância da convivência com o Si-Gung será mera redundância.

O Si-Gung não está presente, fisicamente. Isto é um fato, doloroso, mas um fato. A sua ausência nos importuna e nos consome. Mas, em cada fotografia sua ou em artigos de revista, fortes lembranças são suscitadas. Aí me lembro das aulas de filosofia com a Profa. Dra. Maria do Carmo Tavares de Miranda , na Puc-Campinas.

Naquela ocasião as aulas tratavam do conceito de Presença, em Heidegger, na obra Sein und Zeit .

Obviamente, a compreensão desse conceito não foi imediata, tendo em vista que a construção de conceitos e valores atravessa o processo cultural e histórico de um povo.

“Enfim, presentificar...”, dizia a especialista. Este conceito ficou por muito tempo ecoando intermitentemente em minha cabeça. Até um dia em que, ao rever algumas fotografias, como um insight, encontrei.

Somos nós que tornamos presente, presentificamos o outro, ou seja, reestabelecemos, de certa forma, o vínculo com a pessoa querida. Apesar de a morte representar o rompimento de todo e qualquer vínculo. Daí, explica-se porque muitos afirmam temerem a morte, não porque seja o fim do ciclo da vida, mas porque, inconscientemente, acreditam que isto (a morte) é o fim, a perda do vínculo com os outros com quem viveu..

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Marcos Braga Júnior - Campinas - SP

IN MEMORIAM (A Lenda Viva)
"Great is the feeling for he who conquers every test;
Proud is the one whose good name travels far and fast"
Brendan Lai Si-Gung


Um mar aberto se interpõe aos extremos do mundo. E, a um tempo, limite, fronteira, e travessia e comunhão de espírito, é este firmamento, na distância, o guardião tenaz dos nossos horizontes. Inextinguível universo fecundo reina soberanamente oculto, para além destas águas cambiantes, mensageiras, cuja notícia imaginosa nos trazem, qual se nossas vistas transportassem, num sobressalto, a percorrer o vasto império de dragões e leões que dançam, tigres que atacam, serpentes que espreitam, macacos que saltam, águias que voam e insetos que superam poderes, tamanhos e talentos, num brilho, num surgimento cintilante de dentro dos caminhos mais discretos da natureza, para a perspicácia única dos monges mais contemplativos e o silêncio reverencioso de todos. Esse universo natural e mítico jaz secretamente além das nossas mentes navegantes, e muito embora investidos de um interesse e curiosidade ardentes, vezes sem conta estacamos nas barreiras mais externas desse monumento, desse palácio antigo que é a cultura chinesa, como que ao pé de seus largos portões de ferro, de seu frontispício, entregues a decifrar, custosamente, suas herméticas inscrições.

Significativos atos de bravura concorrem para o desafio da comunicação, do alcance, do conhecimento; nossa ascendência cruzara os oceanos outrora, facultando-nos as iniciais impressões, e nos legando especiais exemplos concretos de beleza e iguarias. As viagens de hoje dão-se noutro firmamento. O anunciar da vivência chinesa ecoa através de ondas invisíveis, que agora conseguimos captar dos infinitos ares, e pelos mesmos ares podemos ir ao seu encontro. Inversamente – e para o nosso inteiro júbilo – um nobre peregrino aceitou, certo dia, aportar em nossas paragens; singrando os céus, num trajeto de sete estrelas, deixou momentaneamente suas andanças no Norte para brindar o Sul com sua excelência, sua fama longínqua e seu arcabouço de riquezas e novidades. Ditou-nos histórias, sagas, experiências; partilhou de seus mistérios e elucubrações; lançou os alicerces de uma ponte sólida, de um laço possível entre os rincões já não mais ilhados, e sim, contíguos. Seu nome percorrera até então muitos lugares e em nossa terra, igualmente, atraiu diversas atenções. Tal como uma lenda viva, como um poema solto à vaga do tempo, de autoria reclusa aos recuos obscuros da origem, cujos versos repetidos, entoados, mais e mais encarnam as feições da tradição imorredoura, da imagem do grande Louva-a-Deus presente a toda luta, a toda festa, a toda arte.

Usavam chamá-lo mãos-de-relâmpago. E um curto período fora bastante para se aquilatar a justeza e a feliz propriedade de semelhante alcunha para quem é o espectro vibrante do fluxo veloz, da alternância implacável e fabulosa entre a inércia serena e o movimento fulminante; quem, nas correntezas do convívio diário era meditação ciosa e imperturbável (por vezes alheia) e absoluta espontaneidade, quietude monástica e riso irrompido, essência insondável para as mais votadas e argutas observações. Na transmissão de sua mensagem, de seus ensinamentos, a mesma e inconfundível naturalidade, traduzida na sensível paciência para com as primeiríssimas incertezas, os embotamentos, os gestos acanhados, e no contagiante entusiasmo ante a expressão mais firme dos rasgos algo indistintos, involuntários ainda, de cada postura pouco mais próxima das articulações do majestoso inseto. Solícito aos melhoramentos destacados, primava sobremaneira pelas evoluções em conjunto, pelo gong fu em nós, num compasso esmagador e sísmico, num ritmo magnético, como as forças maiores do abismo e do espaço, na duração interminável de um trovão surdo...

A luz do Oriente conquistara, enfim, o maravilhamento dos nossos olhos distantes e arredondados, pelas numerosas viagens de parte a parte, em duplo sentido, fazendo fulgir suas cores, seus sons, sua vivacidade cinética, fluida, abrindo em sucessivos raios imensas clareiras, no interior das quais toda uma existência magistral se revela, para o nosso vislumbre e engrandecimento. O Instituto de Gong Fu Brendan Lai tem, no Brasil, sua clareira, impressa sob o fulgor radioso de um inestimável relâmpago: Lai Dat Chung Si-Gung.


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De Edson João Delaseri - Campinas - SP

Momentos e palavras

É tão estranho o sentimento. Difícil de dizer em palavras. Mas são estas que descrevem nossos atos e emoções.
Recordar.
O que significa tal palavra? Significa muito...Re quer dizer de novo, novamente, e cordar vem de coração. Em outras palavras recordar significa passar de novo pelo coração.
Quando recordamos voltamos a experimentar os momentos do passado sejam eles de felicidade ou tristeza. Mas com um grande detalhe: tais lembranças são cheias de sentimentos e passamos a novamente sentir aquelas emoções guardadas.

Mas o que recordar ? Momentos e palavras...

Caro Si-Gung, suas palavras estão guardadas em minha memória e cada vez que as recordo sinto felicidade.
Hi – “Oi”. Era assim que nos cumprimentava. Era um cumprimento sincero e cheio de alegria. Alguém que sempre dizia “Olá” para os alunos e para a vida.

Once more – “Mais uma vez”. Mais um dia repleto de bons momentos. Seus ensinamentos sendo passados para os alunos que repetiam, repetiam, repetiam e repetiam quantas vezes fosse necessário, sempre com persistência, pois sabiam da confiança que o senhor depositava em nós.

Are you ready? – “Você está preparado?”. Quando o Sigung me fazia essa indagação meus pensamentos gritavam “NÃO” mas com um sussurro - ingênuo e humilde - respondia “sim”. Um golpe rápido, meu rosto e meu corpo confirmavam meus pensamentos. Eu jamais estava pronto. Assim como não estava preparado, quando recebi a notícia de vossa partida.

Fast! Very fast! – “Rápido! Muito rápido!”. Velocidade. Seu passo firme e sem pressa se transformava. Seu corpo e mãos se movimentavam tão rapidamente que o tempo parava. Sim! Mesmo o tempo reverenciava vossa velocidade. Mãos de relâmpago nos atingia tantas e tantas vezes e mesmo assim não víamos nada. Apenas podíamos sentir. E com grande rapidez, infelizmente, o senhor partiu.

Grab. – “Agarre”. Nas aulas de Chi-na, tentava segurar firme seu pulso, com todas as forças que tinha, mas nada o prendia. Com um singelo movimento seu braço se libertava e eu, exausto, não tinha mais o que fazer. Com orgulho e coragem, apesar do avanço da enfermidade que o aflingia, o senhor jamais desistiu de viver. Estava agarrado à vida.

Bye. “Adeus”. Era assim que se despedia e foi com tão breve, mas sincera palavra, que nos despedimos naquele almoço.

Obrigado Sigung. Obrigado pelos momentos e palavras que compartilhou comigo e com seus alunos. Sua honrada presença sempre estará em nossos corações.

LAAAI!!!
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